Prefácio para a edição eletrônica

No início do ano de 2005, Anna Maria Koprowski Garcia (in memoriam), recebeu do seu irmão, diretor editorial do então Jornal da Musculação & Fitness, Eugênio Koprowski, a tarefa de pesquisar sobre a vida de Eugen Sandow, conhecido como o primeiro bodybuilder moderno.

Pesquisadora, poliglota e redatora com vasta experiência em literatura internacional, Anna Maria iniciou minuciosa busca por Sandow, mas aos poucos (segundo ela mesma), foi se empolgando e de certa forma se apaixonando pelos personagens e suas vibrantes historias de vida. “Assim, terminou por escrever uma inédita e bem fundamentada série contando fatos e curiosidades do esporte, que se inicia ao raiar do século XIX caminhado até aos anos de 1.970, a chamada “The Golden Era” do Bodybuilding, portanto, há quase duzentos anos desde o surgimento do bodybuilding.

Publicamos novamente esta magnífica série agora na Revista Musculação & Fitness em seu formato eletrônico, para que mais fãs possam apreciar a verdadeira e impressionante historia do bodybuilding internacional, através dos seus atletas mais exponenciais, suas lutas, glórias, desafios e incríveis façanhas, observando mais uma vez que bodybuilders não são seres humanos comuns.

A historia tem muitas versões, mas o presente trabalho de Anna Maria representa vários anos de estudos e confrontação com diversas versões de outros historiadores na busca de um consenso que possa ser o mais próximo da realidade. Vamos acompanhar.

 

CAPÍTULO 1

OS PRECURSORES DE SANDOW

(Séc. XIX) Músculos e definição sem drogas, com força e saúde
Pesquisa e texto: Anna Maria Koprowski Garcia (22.06.1932- 31.08.2013)
Termos Técnicos: Christiano Gailbraight

Para iniciar esta série, recebi a incumbência de pesquisar a vida de Eugen Sandow, conhecido como o primeiro bodybuilder moderno e cuja estatueta é a premiação da famosa competição Mr. Olympia.

Para entender o “furacão” Sandow e situá-lo na “belle époque”, em uma sociedade que caminhava para o século XX e para drásticas mudanças de comportamento (da valsa para o Charleston), do espartilho à minissaia, agitação política e social, fotografia e cinema incipientes, a era industrial se desenhando), fomos em busca de suas primeiras influências, e lá estava um certo professor Attila.

Ai foi preciso mudar as diretrizes iniciais, porque os fatos que se desenrolaram em direção ao passado apontaram outro homem forte que também faz jus ao título de “primeiro bodybuilder moderno”: Louis Durlacher (Professor Attila), nascido em Karlsruhe, Alemanha, em 1.844 .

Professor Attila

Professor Attila

 

Professor Attila

Professor Attila

Sua principal ação foi através de técnicas inovadoras e equipamentos por ele desenvolvidos com que treinou Sandow e muitos outros homens fortes dos primórdios, como o canadense Louis Cyr (considerado o homem mais forte de todos os tempos; seus braços quando flexionados mediam 22 polegadas = 55,88 cm), George Rolandow, Bobby Pandour (um físico tão perfeito quanto o do seu contemporâneo Sandow), Warren Lincoln Travis, Lionel Strongfort, Titus, Barker, Barres, Dandurant, Adolph Nordquest, “Gentleman Jim” Corbett (campeão mundial peso pesado de Box) e outros.

Desenvolver músculos e levantar cargas era uma recreação humana desde a antiga Grécia, mas até meados do século XIX era feito a esmo, usando incômodas barras e halteres. Pesos de formato bizarro, blocos de pedra, toras e uma variedade de peças maciças de ferro eram levantados com força bruta e excessivo peso corporal. Com levantamentos executados de qualquer jeito, suspendendo o peso de qualquer modo, os músculos se desenvolviam apenas como efeito colateral. Attila mudou tudo isso.

 

A TÉCNICA DE ATTILA

Depois de um longo processo de tentativa e erro, Attila e alguns colegas alemães foram demonstrando que era possível construir músculos ao levantar gradativamente pesos maiores, de forma regular e sistemática. Attila desenvolveu o shot loaded barbell (1), precursor do moderno Day disc barbell (anilhas). As posições do corpo foram treinadas, os músculos essenciais para o levantamento fortalecidos e os pesos aumentados por gramas em vez de quilos, usando os novos halteres ocos de Attila. Ele também criou o movimento “bent press” (2), a cadeira romana, a coluna romana e muitas outras inovações.

Shot loaded barbell (1)

Shot loaded barbell (1)

 

Bent press (2)

Bent press (2)

Mas uma pergunta não quer calar:

Quem influenciou Attila no seu início? Foi ele que realmente intuiu todas estas mudanças? Mais avante no passado, bem no início dos anos 1800, está a fonte onde ele bebeu.

 

INICIO DO SÉCULO XIX, O VERDADEIRO COMEÇO DO “BODY-BUILDING”

Os primeiros anos de 1800, na Alemanha, Friedrich Jahn e um grupo de ferreiros já ensaiavam, por tentativa e erro, uma técnica para a construção metódica dos músculos, mediante levantamento gradual e sistemático de pesos. Liderado por Jahn, esse grupo formou uma Liga Germânica (semelhante à Liga Britânica Saúde e Força, que seria fundada quase cem anos depois), para dar diretrizes ao levantamento de pesos e difundir o sistema em feiras e festivais primeiro na Alemanha, mas que em pouco tempo ficou conhecido em toda a Europa. Nascido em 1844, o alemão Attila absorveu esse modelo e moldou seu conhecimento por essa escola, aperfeiçoando ao longo da vida tanto a técnica como os equipamentos.

Gravura de um campo de ginástica em Hasenheide, Berlim século XIX

Gravura de um campo de ginástica em Hasenheide, Berlim século XIX

Na virada do novo século, Sandow era o exemplo perfeito, a prova cabal de que o treinamento progressivo dava resultado. Sandow melhorou mais ainda o sistema e se tornou o primeiro body-builder mundialmente conhecido. Seu físico foi o mais refinado trabalho de construção corporal, o legitimo body-building produzido por Attila, trabalho que não visava a construção de músculos cada vez maiores (o que teriam conseguido), mas sim, ser uma escultura grega viva com proporções perfeitas, domínio muscular e grande força física.

1887 – Foi o encontro de ambos em Bruxelas, na Bélgica. Quando o experiente Professor Attila viu entrar em seu estúdio de cultura física o jovem Friedrich Wilhelm Mueller, 20 anos bem constituídos, imediatamente notou suas qualidades, tornou-se o seu mentor e sugeriu mais tarde um novo nome, compatível com o sucesso que se adivinhava: Eugen Sandow!

Attila fez várias turnês pela Europa com seu pupilo, para torná-lo conhecido.

1889 – Surge a grande chance: Sandow não estava em Londres e Attila o chamou para participar de um importante desafio, em que os famosos “strongmen” Sampson e Cyclops eram os favoritos. Acreditava tanto no seu pupilo que pagou as despesas de viagem e o viu aclamado como vencedor do poderoso Samson. Isso consagrou Sandow e choveram convites para que ele se apresentasse em toda a Europa, usando no palco o sistema e os novos equipamentos e movimentos de Attila, batendo recordes como a execução do “bent press” usando o novo halter de Attila que pesava 271 libras (122,92 kg).

1894 – Nesse ano Sandow aceitou o convite do jovem empresário Ziegfield, de Chicago, e partiu para apresentar-se nos Estados Unidos. A biografia de Attila mais uma vez coincide: ele também foi para a América e no mesmo ano abriu em Nova York seu renomado ginásio, na Times Square. Na placa em frente ao estabelecimento, a menção: “Treinador do famoso Sandow”. Lá dentro podia ser vista treinando a elite americana: Alfred Vanderbilt, Lord Lonsdale, J.Pierpont Morgan, o Barão Rotjschild e muitos outros.

1897 – Sandow, com 30 anos, volta a Londres para concretizar a carreira solo que sua mente brilhante e complexa já elaborava. O Professor Attila continuou nos Estados Unidos, sem a fama excepcional conquistada pelo seu pupilo, mas respeitado por todos, falecendo aos 80 anos, em 1924 (um ano antes de Sandow).

Eugen Sandow aos 30 anos

Eugen Sandow aos 30 anos

Embora documentos das Casas Reais informem que ele foi educador físico do rei Eduardo e da rainha mãe Alexandra da Inglaterra, dos reis Christian da Dinamarca, Haakon da Noruega e George da Grécia, entre outros, o modesto Attila escolheu ficar nos bastidores e nunca procurou a publicidade para si mesmo.

Siegmund Klein, famoso homem forte que treinou com Attila muitos anos, casou-se com a sua filha e mais tarde assumiu o ginásio de Attila, que lhe passou muitos dos seus segredos de força. Ainda em 1.940, preservava em sua academia muitos dos pesos usados por Attila, Sandow e Rollandow e ele próprio ainda era capaz de levantar halteres de 100 libras (45,36 kg) por 10 vezes consecutivas.

Se hoje temos melhores métodos de treinamento e melhores equipamentos, devemos isso aos precursores do século XIX, que eram plenos de originalidade, multifacetados, desafiadores e livres. Eles tinham prazer em competir, dividir suas descobertas, amparar iniciantes e progredir sempre na pratica e nos resultados.

NOTAS:

(1) SHOT LOADING BARBELL – halteres ocos para serem carregados com chumbo para treinamento de peso gradual, precursor das atuais anilhas.

(2) “BENT PRESS” – tipo de levantamento em que o atleta levanta uma barra ou halter, pegando-a com uma mão, no meio da barra, e curvando-se para um dos lados – “bent” – levantando a barra. Ele fica numa posição de meio agachamento e dobrado para um dos lados, simultaneamente. O Strength & Healt Magazine vol. 1 de 1.940 diz que Attila executava o “bent press” com 200 libras (90,72 kg) e achava que esse seria o peso máximo que um ser humano poderia erguer nesse movimento. Mas depois o próprio Sandow realizou o “bent press” com halteres de 271, Cyr com 273 e o “mestre” Saxon 371 libras! Ou seja, respectivamente 122, 92 kg, 123,83 kg e 168,28 kg. (Libra: 453,59 g/libra).

 

EQUIPAMENTOS E MOVIMENTOS ANTIGOS

Por Chistiano Galbraight

Kettle-bells – Tipo de halter que consistia de uma alça presa a uma bola de ferro.

Globe-barbell – Tipo de barra com bolas de ferro nas extremidades, na função de anilhas.

Hand-and-thingh lift – Um tipo de levantamento em que se utilizava uma pequena barra de 30 a 50 cm, com uma corrente presa no meio que se conecta a uma barra longa, esta sim, com pesos nas extremidades. O atleta tentará erguer a barra do chão por “X” segundos, puxando através da barra menor com a corrente.

Pinch grip – Tipo de empunhadura em forma de pinça para fortalecer a pegada das mãos e dedos.

Side press – Basicamente um desenvolvimento unilateral geralmente realizado com um halter ou kettle-bell, em que se permite dobrar o corpo para um dos lados e mesmo apoiar a mão livre na coxa, é semelhante ao “Bent- press”.

Back Lift – Levantamento parcial utilizando uma plataforma apoiada às costas do levantador que permanece com o corpo dobrado e levanta a plataforma onde se encontra uma carga, fazendo a extensão total dos joelhos mantendo esta posição até que o juiz valide o movimento. Nesta época faziam apresentações de força com este movimento colocando às vezes mais de 10 pessoas sobre a plataforma.

Straigth hand-balancing – exercício em que se equilibra com uma mão, com o braço estendido, um peso qualquer, um halter ou outra pessoa.

Head -to-head balancing – Uma parada de mão – em que se levanta e equilibra-se o parceiro de forma que as cabeças fiquem frente a frente.

 

NOTAS DO EDITOR

Estes e dezenas de outros tipos de levantamentos realizados pelos atletas da época foram aos poucos sendo abandonados. O processo de tentativa e erro mostrou que muitos movimentos ou equipamentos eram arriscados ou pouco eficientes, sendo deixados de lado e trocados por outros exercícios mais seguros e eficientes.

Modernamente muitos destes movimentos voltaram à moda com o apelo do “treinamento funcional” ou de atividades que pretendem dotar o praticante de força e condicionamento físico mais aprimorado do que a musculação tradicional possa oferecer. Mas aos poucos vamos percebendo por que foram abandonados por aqueles que nos antecederam e que como nós, também ambicionavam força e boa forma física.

– Prof. Eugênio Koprowski