Análise do duplo produto no treinamento de força em séries com características metabólicas e tensionais

Flávio Lopes Zaniz1, Evandro de Lima, Edimar Vasconselos Parente Júnior,
Plínio Barreto Frota, Cristino Barroso Hipólito Gonçalves, Milton Rocha de Moraes.
Revista Brasileira de Prescrição e Fisiologia do Exercício, São Paulo,
v.2, n.7, p.55-68. Janeiro/Fev. 2008. ISSN 1981-9900.
COMENTÁRIOS – Prof. Dr. José Maria Santarem

O Duplo-Produto (DP) é um parâmetro aceito como indicativo do trabalho cardíaco durante atividades físicas. A sua definição é pressão arterial sistólica multiplicada pela frequência cardíaca.

Valores de DP iguais ou acima de 30.000 são aceitos como indicativos de risco cardiovascular. Nos exercícios contínuos o DP aumenta tanto pela elevação da frequência cardíaca quanto da pressão arterial e é diretamente proporcional à intensidade do exercício. Nos exercícios resistidos o DP varia de forma diferente conforme se realizem menos repetições com mais peso ou mais repetições com menos peso.

A segurança cardiológica em atividades físicas é marcada por menores elevações de DP, visto que esse parâmetro é indicativo da sobrecarga para o miocárdio, ou seja, do trabalho cardíaco. Maiores valores de DP exigem maiores aportes de sangue e oxigênio para o miocárdio. Quando as pessoas apresentam estenoses nas artérias coronárias, o organismo tem dificuldade em aumentar a oferta de sangue proporcionalmente ao aumento do trabalho cardíaco.

Quando comparamos exercícios resistidos com exercícios contínuos (“aeróbicos”), a situação tem outra variável importante para na segurança que é a pressão arterial diastólica. Nos exercícios resistidos ocorrem maiores elevações da pressão arterial diastólica em comparação com os aeróbicos. Quando aumenta a pressão arterial diastólica ocorre aumento da oferta de sangue para o miocárdio, visto que o fluxo coronariano é diastólico. Quanto maior a pressão arterial diastólica maior a oferta de oxigênio para o miocárdio.

O risco cardiológico em atividades físicas está relacionado com a isquemia relativa, ou seja, falta de sangue para o miocárdio em relação com a demanda por oxigênio dada pelo aumento do trabalho. Assim sendo, pode-se dizer que o risco cardiológico em atividades físicas é diretamente proporcional à frequência cardíaca e à pressão arterial sistólica (DP) e inversamente proporcional à pressão arterial diastólica.

No presente trabalho os autores se propuseram a comparar o duplo produto em duas situações de exercícios resistidos: com mais carga e consequentemente menos repetições e com menos carga e mais repetições.

Foram selecionados 11 voluntários homens, com idades entre 20 e 35 anos, normotensos, com pelo menos um ano de experiência em treinamento resistido.

A frequência cardíaca e a pressão arterial foram avaliadas com frequencímetro, esfigmomanômetro e estetoscópio, nas últimas repetições dos exercícios Leg press e Desenvolvimento supino com barra, realizados em duas situações:

a) Com carga de 80 % de 1 RM, previamente determinada, realizando 3 séries de 4 a 6 repetições com dois minutos de intervalo entre séries.
b) Com 60 % de 1RM, realizando 3 séries de 12 a 15 repetições com intervalos de um minuto entre séries.

A primeira situação de exercício enfatiza a sobrecarga tensional e a segunda a sobrecarga metabólica, termos propostos por mim em “Musculação – Princípios Atualizados”, Fitness Brasil, 1.995 e nas apostilas dos cursos técnicos da FEPAM – Federação Paulista de Musculação das décadas de 1980 e 1990 até 2008.

Os resultados mostraram que em nenhuma das situações de treinamento avaliadas o DP foi maior do que 21.500. Além disso, mostrou que o DP no Leg press com mais repetições foi maior do que com menos repetições, o contrário ocorrendo no exercício Desenvolvimento supino.

Este trabalho contribui para o conhecimento em dois aspectos:

1) Mostra que nas situações habituais de treinamento o duplo produto fica bem abaixo do que seria indicativo de risco cardiovascular: DP ≥ 30.000.
2) O duplo produto varia dependendo do exercício utilizado e não apenas em relação às variáveis carga, repetições e intervalos de descanso entre séries.

Metodologia, tabelas, gráficos e bibliografia encontram-se no artigo original.
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