No Brasil, foi por volta de 2015 que começamos a ver com mais frequência nas grandes cidades um tipo de academia até então exótica. Passávamos nas portas e víamos galpões enormes com gente pendurada em barras e argolas, saltando caixotes, largando pesos no chão, tombando pneus de caminhão e até mesmo se exercitando na rua. Para alguns, o ambiente parecia intimidador e os exercícios inacessíveis.

Para quem já treinava, principalmente musculação de forma séria, aquilo tudo parecia uma grande mistura sem sentido que não levaria a resultado algum. Como o ser humano, em sua maioria, é bastante resistente a mudanças, logo vieram as duas grandes polêmicas que até hoje envolvem o esporte: CrossFit® causa muitas lesões? É possível hipertrofia muscular fazendo CrossFit®?

 

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O que é CrossFit ®?

Segundo seu criador e dono da marca registrada, Greg Glassman, CrossFit® é um programa de treinamento funcional, praticado em alta intensidade, e constantemente variado. A atividade trabalha majoritariamente com um mix de exercícios oriundos da ginástica artística, do atletismo e do levantamento de peso olímpico.

Porém, como o conceito do programa é amplo, ao longo dos anos outras atividades foram sendo incorporadas, de acordo com a disponibilidade do ginásio de treino – o box. Assim, hoje, há também a inclusão de exercícios de powerlifting, strongman, escalada indoor, natação, ciclismo e até mesmo stand up paddle.

 

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Afinal, para que serve o CrossFit®?

O CrossFit®, em sua essência, foi idealizado por seu criador para melhorar todas as capacidades físicas do praticante, fazendo com ele saia da condição de sedentarismo e colha os frutos para melhora de sua saúde e qualidade de vida. Portanto, o objetivo da atividade, em princípio, é geral: desenvolver resistências cardiorrespiratória e muscular, flexibilidade, força, coordenação, potência, agilidade, equilíbrio e velocidade.

 

É possível obter hipertrofia muscular praticando CrossFit?

A resposta simplória é sim. Porém, esta pergunta costuma ter uma entrelinha: o grau de hipertrofia muscular é similar ao da prática de musculação tradicional? Aqui, já não se pode ser raso.

Em primeiro lugar, não há um estudo científico, ainda, que faça esta comparação. Mas, o conhecimento técnico sobre sistemas de treinamento nos permite tirar algumas conclusões. Para o praticante comum, que busca apenas saúde, bem-estar e alguma melhora da composição corporal com objetivos estéticos, tanto faz a opção pela musculação ou pelo CrossFit®, pois ambos serão capazes de proporcionar este resultado.




O que será determinante na decisão é o gosto pessoal e a motivação para cada atividade. Todavia, se o objetivo é o desenvolvimento da hipertrofia muscular máxima; neste caso, a musculação será a melhor opção, pois é a atividade física que, por essência, detém todas as ferramentas teóricas e práticas específicas para esse fim.

Em resumo, você não será um fisiculturista praticando CrossFit®, mas pode ser capaz de desenvolver um físico muito acima da média caso alie o esporte a uma nutrição adequada para este fim. Atletas como Marcus Filly e Becca Day ostentam shapes de causar admiração em muitos entusiastas do fisiculturismo!

 

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O índice de lesão no CrossFit é maior?

O primeiro estudo científico direcionado a responder esta dúvida foi realizado em 2013 por Hack e colaboradores e publicado no respeitado Journal of Strength and Conditioning Research. Embora os críticos do esporte costumem divulgar parcialmente o resultado desta pesquisa, apontando para o resultado de 73,5% de prevalência de lesões em um total de 132 praticantes entrevistados, o mesmo estudo também aponta um resultado de incidência de 3,1 lesões para cada 1000 horas de prática – um número similar ao de esportes como levantamento de peso olímpico, powerlifting e ginástica artística e bem inferior ao de esportes como futebol e rugby.

Vale salientar, para melhor compreensão dos resultados, a diferença científica entre os termos prevalência e incidência. O primeiro significa o número de casos durante um período de tempo (quantos indivíduos praticantes da atividade estavam lesionados de x data a y data). Já a incidência diz respeito ao número de casos ocorridos sob determinada circunstância em um determinado período de tempo (ou seja, quantos indivíduos se lesionaram durante à prática de x data a y data).

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Posteriormente, outros estudos foram feitos, onde os resultados de incidência permaneceram similares. Moran S. e colaboradores, em 2017, publicaram uma taxa de incidência de 2.1 lesões para cada 1000 horas de prática.

Em 2018, Klimek C. e sua equipe publicaram uma revisão sistemática sobre o assunto e concluíram que o risco de lesão no CrossFit é similar ao de esportes como corridas de longa distância, trilhas, levantamento de peso, ginástica, futebol, entre outros. Esse último estudo também concluiu que as maiores prevalências são de lesões da articulação do ombro, em homens que costumam treinar sem a supervisão de um coach. Certamente, um resultado bem previsível e também similar ao de outros esportes…

 

CrossFit® Games

CrossFit® Games

CrossFit é só “modinha”… Será?

Os exercícios em si, a periodização com microciclos variados, a alta intensidade aliada ao grande volume de treino, o HIIT e até mesmo o treinamento em circuito, que no CrossFit® é chamado de WOD (workout of the day), não são novidades. O que o seu criador fez foi juntar tudo isso em um formato acessível para expor fora do treinamento desportivo de alto rendimento.

Ele mostrou ao público comum que tudo isso pode ser feito por qualquer pessoa e não apenas por atletas olímpicos fantásticos! Greg Glassman, ex-ginasta e personal trainer, registrou a patente da marca CrossFit® em 2000. Desde então, se tornou o maior nome empresarial do fitness no mundo.

Em junho de 2018, a revista Exame publicou uma matéria especulando que a marca está avaliada em US$ 5 bilhões. De lambuja, ainda alavancou a empresa esportiva Reebok, que andava meio em baixa até ser alçada à grife oficial de roupas e calçados para a empresa de Glassman, sendo a principal patrocinadora do CrossFit Games®, “copa do mundo” da modalidade.

 

CrossFit Box

No Brasil, o primeiro box foi registrado em 2009. Em agosto de 2018, já eram 1006. Se levarmos em consideração as academias não afiliadas à marca americana, mas que promovem treinamentos “tipo CrossFit®”, utilizando terminologias como Crosstraining, X-Fit, Cross, MMT (Mixed Modalities Training), entre outras, os números podem saltar para até 10 vezes mais, embora não haja uma estatística oficial.

A popularidade da grife ainda foi capaz de alavancar o interesse e abriu um novo mercado de trabalho para um esporte até então desconhecido e inacessível à maioria das pessoas: o LPO (levantamento de peso olímpico). Outro “efeito colateral” é um crescente interesse pela prática da ginástica artística, algo pouco comum até este ano de 2018.

Se considerarmos que boa parte dos boxes também são powerlifting e strongman friendly, vemos que estes ginásios abraçam praticantes de diversas modalidades que as academias tradicionais negligenciaram por anos, oferecendo uma gama maior de experiências de práticas corporais até então inédita para a maioria dos alunos.

CrossFit Aulas

CrossFit em grupo

O fato das aulas serem coletivas proporcionou a criação de vínculo de identidade entre os praticantes e surgiu toda uma cultura própria que muitas vezes transcende o treino em si, sendo relativamente comum entre eles a realização de churrascos e eventos festivos no próprio box – sempre precedido de um WOD (treino), claro! É o chamado “lifestyle crossfiteiro”…

Por fim, há uma preocupação cada vez maior da matriz americana em divulgar a modalidade para fins além de estética, priorizando vincular sua imagem ao incremento da saúde. Inclusive, já há um curso voltado para a formação de coaches especializados em CrossFit® adaptado, para treinar pessoas com diversos tipos de deficiência. Comercialmente, esta postura é ainda mais atrativa, pois a maior parte do público comum se desmotiva com a prática de exercício físico cujo apelo de marketing primário seja o incremento estético, pois este é um resultado de longo prazo e dependente de outras variáveis, principalmente a alimentação saudável e, muitas vezes, personalizada e inflexível.

Se o grande apelo for a manutenção da saúde, com metas voltadas para desempenho, como, por exemplo, a realização perfeita de um exercício com alto grau de complexidade ou um levantamento de peso com marca impressionante, as chances de aderência à modalidade são bem maiores. É um fenômeno que os profissionais de Educação Física vinculados à modalidade têm visto se concretizar com cada vez mais frequência.

 

CrossFit Games

Aparentemente, o CrossFit® já passou no teste do tempo. O branding da marca já a consolidou como sinônimo de “programa de treinamento funcional de alta intensidade” e dificilmente haverá uma desvinculação por parte do público. Tal como aconteceu com o Pilates, o desafio futuro da empresa será o de não perder a patente.

O CrossFit Games® acaba de passar por uma enorme reformulação e é esperado que em 2019 ganhe status olímpico em número de atletas e países envolvidos. A cada dia que passa, no mínimo, um tablado de LPO é montado e um par de argolas olímpicas é pendurado no crossover de uma academia de bairro.

Os empresários do ramo fitness que ainda acham que é “só modinha” tendem a ficar para trás. Greg Glassman conseguiu mudar a forma de enxergar o treinamento físico neste início do século XXI. O último que, apesar de em circunstâncias diferentes, conseguiu tal façanha, foi Arnold Schwarzenneger – mas, esta história o leitor da M&F conhece bem!

 

REFERÊNCIAS
HAK, P. T.; HODZOVIC, E.; HICKEY, B. The nature and prevalence of injury during CrossFit training. Journal of Strength and Conditioning Research. 2013, no prelo.
KLIMEK, C.; ASHBECK, C.; BROOK, A. J.; DURALL. C. Are Injuries More Common With CrossFit Training Than Other Forms of Exercise? Journal of sport rehabilitation. 2017, no prelo.
MORAN, S.; BOOKER, H.; STAINES, J.; WILLIAMS, S. Rates and risk factors of injury in crossfit: a prospective cohort study. Journal of sport medicine and physical fitness, 2017, no prelo.
TIBANA, R.; SOUSA, N.; PRESTES, J. CrossFit®: uma análise baseada em evidências. Revista Brasileira de Prescrição e Fisiologia do Exercício. 2017
https://exame.abril.com.br/negocios/como-o-crossfit-virou-um-negocio-de-5-bilhoes-de-dolares-2/ – consulta em 07/09/2018

Profa. Daniela Del Giorno

Neurocientista pela FMUSP e Coordenadora de grupos de treinamento, Professora e Coach. Pesquisadora e redatora na área; Atleta amadora de Powerlifting e Crossfit – CREF 139499-G/SP – [email protected]