Estamos no auge do inverno e, convenhamos, não somos russos! Para uma população que já nasceu em um contexto climático polar, levantar pesos em temperaturas glaciais faz parte da rotina. Há uma adaptação metabólica e psíquica para que a tarefa não seja tão árdua. Mas, este não é o caso de nós, brasileiros.

Para a maior parte da população, melhor adaptada a temperaturas amenas e quentes, o corpo e a mente sofrem até mesmo em pensar em treinar quando os termômetros marcam algo abaixo de 15°. Nem estou considerando aqui as pessoas que não gostam de praticar musculação – para elas, certamente é ainda pior. Estou me referindo ao típico público da revista M&F: entusiasta e disciplinado.

Mesmo assim, os meses de inverno mais rigoroso, principalmente em SP e na região Sul do país, podem ser extremamente desmotivantes para a continuidade da periodização do treinamento. E motivação é o botão de start do ser humano para realizar qualquer coisa – de beber água a treinar.

A motivação pode ser intrínseca, ou seja, é inerente ao sujeito (“faço porque gosto”), ou extrínseca, advinda de fatores externos, a fim de se obter algo que está dissociado do exercício em si (“faço para ficar com o corpo da blogueira”).

 

Um artigo atualíssimo, de julho de 2017, publicado por um grupo de pesquisadores de Biologia da Psicologia da Universidade de Amsterdã, nos mostrou que até 37% das respostas afetivas ao exercício podem ser determinadas por fatores genéticos. Essas respostas afetivas envolvem tanto o prazer no ato de se exercitar quanto a busca voluntária e regular por se exercitar. É um número muito expressivo para algo que, aparentemente, foge ao nosso controle. Aparentemente, pois genética pode ser manipulada (outro artigo para a M&F?! =D). Porém, ainda temos mais de 60% de motivação extrínseca que está nas nossas mãos para mexermos fácil e à vontade! Ela, infelizmente, é volúvel e fugaz, mas, está sob controle nosso. Então, mãos à obra!

Existem algumas estratégias interessantes que podemos lançar mão a fim de “manter o sangue nos olhos” quando precisamos, muitas vezes, encostar uma barra gelada com 100Kg de anilha nas costas às 6h da manhã, sob 8°C, em um ambiente não climatizado. Mas, antes, gostaria de fazer uma consideração importante: algumas pessoas, por razões diversas, sofrem de uma doença chamada depressão sazonal. São pessoas que tem o seu metabolismo cerebral desregulado durante uma determinada estação do ano, geralmente no inverno, principalmente devido a fatores neuroendócrinos. Por questões didáticas, não é viável tratar do assunto neste artigo. Portanto, vou me ater apenas a estratégias de motivação ligadas a alterações de humor normais, sem transtornos psíquicos.

O treinamento de força engloba diversas modalidades, algumas esportivas (com competição) e outras não. No Brasil, é comum encontrarmos onde praticar levantamento de peso olímpico, powerlifting, strongman, bodybuilding, crossfit, ginástica artística, luta de braço, arremesso de peso (modalidade do atletismo), pilates, ginástica localizada, musculação e calistenia. Muitas vezes, escolhemos o que praticamos não por gosto pessoal, mas, por conveniência – tempo, disponibilidade para a prática na região em que se vive, condições financeiras, etc. Se você tem uma personalidade competitiva, se inscreva em uma competição onde os meses de pré-contest sejam os mais frios. Caso contrário, talvez seja interessante se planejar para, de junho a agosto, por exemplo, tentar praticar a modalidade de força que realmente se tem afinidade.

 

Pode ser uma troca de horário, planejar uma reserva financeira para sustentar uma academia que possa ser um pouco mais cara por 3 meses ou, até mesmo, marcar uma viagem de fim de semana para treinar naquela gym que você sempre viu na revista e tem vontade de conhecer! Afinal, você não vai querer chegar no local dos seus sonhos para treinar, muitas vezes encontrar até mesmo um ídolo do esporte treinando junto e se sentir despreparado! rsrsrs Quando fazemos o que mais gostamos, não precisamos de justificativas a mais para ir fazer o que precisa ser feito…

Traga a sua meta para mais próximo de você. Vai competir no fim do ano? Controle seus treinos num calendário, risque os dias, use marca-textos, faça um gesto físico, mecânico, papel e caneta, que te lembre o que está por vir. O gesto motor ativa mecanismos neurais de memória de longa duração de forma mais eficiente do que apenas um clique.

Não vai competir, mas quer atingir uma determinada carga, ganhar mais volume em um determinado grupamento muscular ou reduzir suas taxas de triglicerídeos sérico? Anote suas progressões, faça avaliação física, realize seus exames periódicos de acordo com a prescrição médica, olhe seu corpo, apesar dos casacos, nem que seja 5 minutos no banho. Não perca as suas referências! Sem elas, tudo parece distante e inatingível… Daí, o alívio imediato da cama quentinha, do fondue com vinho, de se esquentar em camadas de roupas largas e confortáveis, supera qualquer planejamento de médio prazo porque nós, humanos, somos assim mesmo; sempre buscamos alívio imediato para as nossas dores…

É o sistema cerebral da recompensa, comportamento biológico que nos leva a buscar estímulos prazerosos para nos mantermos motivados a realizar gestos de sobrevivência, como comer, beber e reproduzir. Todavia, também é este sistema que nos leva ao vício e ao comportamento de auto sabotagem. Por isso, é tão importante não perdermos o nosso objetivo de vista!

Na edição da revista impressa atual da Revista Musculação & Fitness nº 107, cito em um artigo sobre o mestre Arnold manter pôsteres de Reg Park pendurados na parede… Eu tenho os meus da Denise Masino (shape mais fantástico do culturismo feminino na minha humilde opinião!), Dana Linn Bailey (a nova era, atleta completa e exemplar dentro e fora do palco!), Sara Sigmundsdottir (a releitura da força através do Crossfit) e de duas inspirações 100% nacionais, Ana Rosa Castellain e Marília Coutinho (histórias distintas do que o brasileiro faz de melhor, que é tirar leite de pedra!).

E você, qual é a sua inspiração, o que te motiva, qual é a sua meta?!
A minha, é sempre botar mais dez!!! ;-D


Referências:
SCHUTTE, N. M. et al. Heritability of the affective response to exercise and its correlation to exercise behavior. Psychology of Sport and Exercise, v. 31, p. 139–148, jul. 2017.

Neurocientista pela FMUSP e Coordenadora de grupos de treinamento. Pesquisadora e redatora na área; Atleta amadora de Powerlifting – CREF 139499-G/SP – [email protected]