O coração é um órgão que possui o tamanho um pouco maior que uma mão fechada e funciona como uma bomba ajustável, pois possui estruturas que realizam juntas funções para impulsionar o sangue para todo o corpo. Ele é o principal órgão do sistema circulatório, cuja função é fornecer pressão para o sangue se deslocar, permitindo assim que haja um percurso sanguíneo de uma zona de alta pressão, o coração, para outra com menor pressão, a periferia corpórea.

A prática de exercícios anaeróbicos realizada de forma frequente e intensa pode gerar alterações miocárdicas específicas e visíveis num exame de ecocardiograma. Durante a prática esportiva, os sistemas mais solicitados são o cardiovascular, atuando em conjunto com o sistema respiratório e o muscular, porém, sabe‑se que o cardiovascular é o carro‑chefe de uma atividade física, pois tem o papel fundamental na distribuição de nutrientes e oxigênio para as células musculares. Age em parceria com o sistema respiratório, tendo o coração como bomba propulsora de todo o volume sanguíneo.

Todos os mecanismos desses dois sistemas estão relacionados ao transporte de oxigênio, sendo denominados coletivamente como sistemas de transporte de oxigênio.

Alterações anatômicas e funcionais do coração em decorrência da musculação - cardio

O funcionamento do sistema de transporte de oxigênio é definido pela interação do débito cardíaco e a diferença arteriovenosa de oxigênio. O débito cardíaco é a quantidade de sangue que sai do coração por unidade de tempo, resultando basicamente do produto do volume sistólico pela frequência cardíaca. A sua regulação é feita por intermédio de mecanismos intrínsecos e extrínsecos localizados nas células do miocárdio. A diferença arteriovenosa de oxigênio, que é a diferença entre o conteúdo de oxigênio do sangue arterial e o conteúdo de oxigênio do sangue venoso, nos informa quanto de oxigênio é extraído pelos tecidos.

A remodelação cardíaca é inicialmente definida como um conjunto de adaptações fisiológicas ou patológicas, envolvendo o músculo cardíaco. O coração se adapta em tamanho, forma e função às alterações hemodinâmicas, sendo que os mecanismos de adaptação envolvem aspectos mecânicos, bioquímicos e moleculares.

Em resposta ao treinamento, ocorrem várias adaptações cardiovasculares, sendo essas adaptações observadas nos parâmetros de tamanho do músculo cardíaco, decorrente do aumento da demanda de trabalho cardíaco, bem como o aumento do peso e volume do coração. Em virtude de tais alterações, observamos em exames de ecocardiograma o aumento de espessura da parede e o tamanho da câmara ventricular esquerda em decorrência do treinamento anaeróbio.

 

Alterações anatômicas e funcionais do coração em decorrência da musculação - Atleta

AS ALTERAÇÕES ANATÔMICAS CARDÍACAS

O músculo cardíaco, assim como o músculo esquelético, sofre hipertrofia (aumento no tamanho das células cardíacas) como resultado do tipo de treinamento no qual é submetido. Durante algum tempo, a hipertrofia cardíaca induzida pelo exercício, denominada de coração de atleta, causou grande preocupação, pois os especialistas acreditavam que o aumento do coração sempre refletia uma condição patológica. Felizmente, a hipertrofia cardíaca atualmente é reconhecida como uma adaptação normal ao treinamento físico.

Sendo assim, podemos realizar um diagnóstico diferencial entre as alterações hipertróficas cardíacas de origem patológica e fisiológica.

 

HIPERTROFIA CARDÍACA DE ORIGEM FISIOLÓGICA

A hipertrofia fisiológica acontece quando ocorre aumento das solicitações hemodinâmicas nos períodos de exercício. O ventrículo esquerdo, que é a câmara cardíaca que trabalha mais intensamente, sofre a maior alteração.

Basicamente, podemos dizer que ocorre o alongamento e tensão nas células cardíacas que respondem com hipertrofia, caracterizada por aumento das miofibrilas nos cardiomiócitos (fibra muscular cardíaca).

As alterações anatômicas decorridas no músculo cardíaco são marcantes, podendo levar a aumentos de até 85% na massa do ventrículo esquerdo. Tais alterações estruturais diferem de acordo com o tipo de modalidade esportiva exercida, pois sabemos que a demanda cardíaca é diferente em determinados tipos de treinamentos esportivos.

Alterações anatômicas e funcionais do coração em decorrência da musculação - alterações

Durante o treinamento de força, ocorre um aumento significativo na pressão arterial sanguínea, fazendo com que o coração sofra uma contração ventricular esquerda mais forte do que o habitual, situação referida como pós‑carga elevada. Para superar essa pós‑carga elevada, o músculo cardíaco acaba sofrendo um processo de compensação aumentando de tamanho (espessura da parede) e, consequentemente, aumentando sua contratibilidade.

Mediante esse processo, ocorrem alterações cardíacas importantes em nível celular, abordadas mais detalhadamente no próximo tópico, que chamamos de hipertrofia cardíaca concêntrica, caracterizada principalmente pela prática frequente de exercícios com predominância do metabolismo anaeróbio, como por exemplo os exercícios resistidos de musculação.

Já perante o treinamento aeróbico, também ocorrem alterações estruturais do músculo cardíaco, que se diferem anatomicamente das alterações causadas pelos exercícios anaeróbicos, podendo ser visualizadas e diferenciadas num exame de ecografia cardíaca, porém, neste artigo daremos ênfase especificamente aos exercícios anaeróbicos e sua relação com o músculo cardíaco.

 

Alterações anatômicas e funcionais do coração em decorrência da musculação - patologicas

HIPERTROFIA CARDÍACA DE ORIGEM PATOLÓGICA (relacionada a doenças cardíacas)

Na hipertrofia de origem patológica (relacionada a doenças), observamos a ocorrência de um aumento crônico das solicitações hemodinâmicas, como no caso de doença hipertensiva, valvopatias, comunicações intracavitárias e também nas doenças genéticas, em que a hipertrofia apresentada é diferente da hipertrofia fisiológica. Essas diferenças básicas podem ser definidas pela ocorrência de fibrose intersticial e necrose de cardiomiócitos.

Em doenças em que normalmente ocorre sobrecarga de pressão como, por exemplo, a estenose aórtica ou a hipertensão arterial sistêmica, ocorre hipertrofia (aumento) das paredes do miocárdio com redução das câmaras cardíacas, o que também pode configurar uma Hipertrofia concêntrica do miocárdio, como ocorre igualmente nas alterações cardíacas fisiológicas pelos exercícios de força.




Os novos sarcômeros (componente básico do músculo cardíaco que permite a contração muscular) são depositados “em paralelo” aos pré‑existentes, aumentando a força de contração dos cardiomiócitos e levando ao aumento de espessura do ventrículo esquerdo.

A espessura do miocárdio ultrapassa com frequência o limite da normalidade e, com a evolução do processo, costuma ocorrer diminuição da espessura das paredes cardíacas e diminuição da força de contração, levando à chamada Cardiomiopatia dilatada.

A cardiomiopatia hipertrófica ou dilatada é uma condição enferma do coração, visivelmente observada em exames cardíacos. Ela pode levar ao quadro de insuficiência cardíaca que, se não tratada adequadamente, resulta na ocorrência de infarto ou parada cardíaca (arritmia grave), podendo ser letal.

 

Alterações anatômicas e funcionais do coração em decorrência da musculação - força

ALTERAÇÕES CARDÍACAS DECORRENTES DO TREINAMENTO DE FORÇA

Os atletas dedicados ao treinamento de força (treinamento resistido) apresentam períodos breves com aumentos consideráveis da pressão arterial sistólica e diastólica e aumentos moderados da frequência cardíaca, do volume sistólico e do débito cardíaco.

A resposta cardíaca é uma hipertrofia fisiológica caracterizada por aumento da espessura da parede ventricular, com os novos sarcômeros depositados “em paralelo” aos preexistentes. A espessura do miocárdio não ultrapassa o limite da normalidade e as câmaras cardíacas apresentam discreto aumento ou ausência de aumentos, mas nunca diminuem, configurando o que chamamos de Hipertrofia cardíaca concêntrica.

É muito importante ressaltar que as alterações cardíacas geradas pelos exercícios de força (hipertrofia cardíaca concêntrica) não estão relacionadas à perda da função cardíaca, pois apresentam uma condição fisiológica imposta pela prática de exercícios anaeróbicos frequentes, sem prejuízos à saúde cardiovascular.

 

Alterações anatômicas e funcionais do coração em decorrência da musculação.

CONCLUSÕES

Na observação de um ecocardiograma, em que se verifica uma provável alteração anatômica na câmara cardíaca do paciente, sugerindo assimetria septal ventricular, é muito comum surgir a dúvida se a mesma é de origem fisiológica (coração de atleta) ou patológica (ligada a doenças cardíacas), deixando o profissional muitas vezes em dúvida e enquadrando o quadro clínico no que chamamos de zona de risco cinza.

Porém, nesses casos a conduta mais eficaz é afastar esse atleta da atividade física ou esporte por um período de ao menos seis meses, e após esse tempo os exames deverão ser repetidos. Isso ocorre porque sabemos que, se a alteração for de origem fisiológica, o ventrículo alterado anatomicamente pelo exercício físico voltará ao padrão de normalidade.

Já por outro lado, se, mesmo após o período de repouso, com a suspensão da atividade física, o músculo cardíaco continuar apresentando comprometimento estrutural, há grandes chances de o mesmo apresentar um quadro de cardiopatia, levando o profissional a adotar condutas específicas de tratamento (no caso de o atendimento estar sendo realizado por um especialista cardiologista) ou encaminhando o paciente para cuidados mais específicos.


Referências:
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Cirurgião e Traumatologista Facial. Especialista em Fisiologia Humana e Fisiologia Esportiva com foco na Metabologia. Especialista em Nutrição Esportiva. Assessor para criação de fórmulas para empresa de suplementos. Contato: [email protected] / Facebook: Dr. Edson Rosa.