Baixa testosterona sanguínea, disfunção erétil: eleva o risco de doença cardiovascular?

 

É fato que homens têm mais predisposição a doenças das artérias coronarianas que as mulheres, com isso há uma percepção de que a testosterona (T) aumenta os riscos de doenças ateroscleróticas e mortalidade por doença cardiovascular [1, 2, 3, 4]. É fato que a T exógena diminui HDL, por isso há uma ligação de esteroides anabolizantes com risco de doenças cardiovasculares. A população em geral argumenta que a administração de esteroides anabolizantes causa risco cardiovascular. E quando os níveis de T estão baixos? Alguns estudos a seguir, mostram a relação saúde cardiovascular vs. nível baixo de T (mesmo estando dentro do valor com base na referência de laudo clínico).

Algumas linhas de pesquisas sugerem que nível endógeno de T abaixo de 400 ng/dl está associado com o aumento no risco de doença coronariana [5, 6]. Estudos cruzados e longos mostraram também aumento na massa corporal, pressão sanguínea sistólica e triglicérides [7], colesterol total, LDL, apolipoprotein A e B [6], fatores trombóticos [8], disfunção endotelial [9], resistência à insulina [10], adiposidade visceral [11], diabetes [12], síndrome metabólica [13] e diminuição do HDL [14]. Sobretudo, níveis baixos de T (<400 ng/dl) predizem um alto risco de doença cardiovascular e mortalidade.

Vários estudos revelam que uso de T reduz a gordura visceral, glicemia, insulina, triglicérides, pressão sanguínea, fatores trombóticos [15], CRP [16], leptina [17] e melhora a sensibilidade à insulina [18]. O nível de redução da gordura intra-abdominal com o uso de T exógena parece ser dependente da dose e concentração, ou seja, dose entre 300 – 600 mg/semana de enantato de testosterona diminuiu significativamente a gordura corporal, sem alteração nos fatores de risco cardiovasculares.

O estudo de ROBERTS et al. [19] mostrou que doses de T (20, 50, 125, 300 e 600 mg/semana) não mostraram efeitos significantes no que diz respeito ao estresse oxidativo, inflamação e ativação das células endoteliais (PGF, MCP-1, sICAM-1 e hs-CRP – risco cardiovascular) em homens jovens e idosos saudáveis quando administradas junto com um mimético do hormônio liberador de gonadotrofina (GnRH), por 20 semanas. Vale ressaltar que altas doses (10-100 vezes a dose terapêutica) parece ser maléfico a saúde [20].

O que é realmente válido é a análise individual de cada caso. Como podemos verificar, níveis abaixo de 400 ng/dl de testosterona total apresenta um alto risco de doença cardiovascular, lembrando que esse nível está dentro da referência (175-781 ng/dl) de acordo com a interpretação de exames laboratoriais.

Deficiência de testosterona em pacientes com disfunção erétil tem relação com risco cardiovascular?

A disfunção erétil (ED) afeta 50% dos homens entre 40-70 anos de idade e está associada com fatores de risco modificáveis tais como, diabetes, hipertensão, hiperlipidemia, obesidade, fumo e estilo de vida sedentário [21,22,23,24]. A ED tem total relação com risco cardiovascular [25] e é um dos muitos sintomas da síndrome da deficiência de testosterona (TDS) [26], ou seja, nível baixo de testosterona. Vale ressaltar que, de acordo com o European Guidelines [27], um nível abaixo de 230 ng/dl de testosterona total já existe uma dificuldade em conseguir uma ereção satisfatória.

No estudo de Martinez et al. [28], a prevalência de risco cardiovascular associado à ED foi alto. Estudos recentes têm observado uma grande associação de baixos níveis de T com mortalidade por doença cardiovascular [29,30,31]. De fato, a terapia de reposição de testosterona tem um papel indireto na manutenção da saúde, modulando fatores de risco cardíaco como aqueles implicados pela síndrome metabólica [32].

Perder peso (dieta e exercício) é altamente recomendado em homens obesos com T baixa. Dessa forma, já é possível ter uma melhora dos níveis de T, sendo mais eficaz em jovens não-diabéticos [33]. E quando aliado a administração de testosterona exógena o resultado é mais incisivo.


REFERÊNCIAS
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