Durante alguns anos venho expondo a desinformação, simplismo, preconceito e outras formas de viés interpretativo por trás da condenação ao uso dos esteroides androgênicos anabólicos (AAS). Mais que isso, alguns elementos simbólicos mais complexos e subliminares parecem estar envolvidos, como a demonização da própria força (Williams 2000).

Também acredito que a prática de caça às bruxas que caracteriza hoje o combate ao doping nos esportes é não apenas ineficiente, autoritária, em boa parte anticientífica, como tem relações com agendas políticas e econômicas ocultas de grande relevância, como as das estruturas de poder no esporte (as federações e órgãos reguladores, que têm um instrumento de controle de grande violência nas mãos) e a indústria farmacêutica (Coutinho 2007).

Finalmente, tenho argumentado insistentemente que o problema de saúde relacionado a abuso de substâncias ergogênicas não é o atleta, e sim o usuário recreacional, que só poderá tomar decisões em seu favor com mais informação (Coutinho 2010).

 

Demonização e Apologia ao Uso de Esteroides Anabólicos

No entanto, a consciência de que há “algo errado” em condenar de maneira simplista o uso e os usuários de AAS levou uma parte grande das pessoas, particularmente atletas e entusiastas do treinamento com pesos, a uma atitude especular e especularmente perigosa: a ideia de que não há risco nem perigo algum. Essa falsa noção de segurança no uso de AAS é fortemente estimulada pelos agentes do mercado negro, em especial os sites de venda destas substâncias que disseminam informação equivocada e sem base científica (Clement et al 2012).

O problema do mau uso de AAS, principalmente sua autoadministração ou prescrição por leigos, é que os efeitos negativos não se restringem à toxicidade e aos conhecidos efeitos colaterais fartamente discutidos. O mau uso de AAS cria drogadictos inocentes entre uma população não propensa a uso de substâncias recreativas (Pope et al 2010, Lumia & McGinnis 2010).

Além disso, os efeitos psiquiátricos de curto e longo prazo são dramáticos. Vão desde a inevitável ansiedade até comportamentos agressivos, paranoicos e depressão. O crescimento do uso indiscriminado de AAS entre adolescentes, cujos motivos estão mais relacionados a questões de auto‑estima e auto‑afirmação masculina, criou uma epidemia de casos psiquiátricos graves. É possível que a auto‑administração de AAS agrave ou manifeste desordens psiquiátricas como a desordem bipolar, transtornos depressivos e de ansiedade, além de outros (Oberlander & Henderson 2012, Tucci et al 2012).

Entre atletas ou “quase‑atletas”, a coisa é melancólica: grandes talentos se perdem porque perdem a fé em sua própria força e competência. Vi não um ou dois grandes atletas que ironicamente “compraram” o argumento de que sua performance excepcional era produto dos AAS, exatamente como acusavam seus detratores.

 

Demonização e Apologia ao Uso de Esteroides Anabólicos

O que fazer diante disso? Bato na mesma tecla de que a caça às bruxas e combate terrorista praticado pelos órgãos de controle ligados à WADA só produz mais drogadictos. Substituir o moralismo por educação seria um grande passo.

Outra medida importante seria conscientizar a população de que auto‑medicação é sempre arriscado. Não há nada de errado com o medicamento em si, mas fazer “stacks” indicados por idiotas sem formação nenhuma, empilhando deposteron, hemogenin, dura e o que for a bola da vez, é equivalente a jogar o conteúdo de vidrinhos sem rótulo dentro de um tubo de ensaio e esperar para ver se explode.




A terceira medida, consequência lógica da anterior, seria promover atitudes mais realistas e inteligentes entre a comunidade médica. Se o mau uso está gerando uma epidemia de casos psiquiátricos e de desordens endocrinológicas, o uso é buscado por muitos e muitas vezes é inevitável. Trata‑se de ajudar o paciente, e não condená‑lo ou rejeitá‑lo. O médico que ganha a confiança de seu paciente venceu a batalha contra o traficante.

Perdi amigos que viraram outras pessoas com o uso crônico e errado de AAS. Achei por bem escrever este artigo como alerta e reflexão sobre o maniqueísmo em que caímos quando a discussão perde a objetividade e racionalidade, quando vira briga religiosa ou eleitoral.

Trazer a conversa de volta ao terreno dos fatos e da neutralidade moral beneficia a todos, menos aos poderosos e à indústria farmacêutica…

…danem‑se eles.

 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Lumia AR, McGinnis MY. Impact of anabolic androgenic steroids on adolescent males. Physiol Behav. 2010 Jun 1;100(3):199-204.
Oberlander JG, Henderson LP. The Sturm und Drang of anabolic steroid use: angst, anxiety, and aggression. Trends Neurosci. 2012 Jun;35(6):382-92.
Tucci P, Morgese MG, Colaianna M, Zotti M, Schiavone S, Cuomo V, Trabace L. Neurochemical consequence of steroid abuse: stanozolol-induced monoaminergic changes. Steroids. 2012 Feb;77(3):269-75.
Clement CL, Marlowe DB, Patapis NS, Festinger DS, Forman RF. Nonprescription steroids on the Internet. Subst Use Misuse. 2012 Feb;47(3):329-41 Pope HG, Kean J, Nash A, Kanayama G, Samuel DB, Bickel WK, Hudson JI. A diagnostic interview module for anabolic-androgenic steroid dependence: preliminary evidence of reliability and validity. Exp Clin Psychopharmacol. 2010 Jun;18(3):203-13.
Williams, J. The Demonization of Anabolic Steroids, Part 1 – What Makes These Hormones So Evil thinksteroids.com/articles/demonization-anabolic-steroids-01/
Coutinho, M. Anti-doping. 2007. mariliacoutinho.livejournal.com/47710.html
Coutinho, M. O uso indiscriminado das drogas otimizadoras de performance. 2010.

Pesquisadora, Conferencista, Professora e Consultora Técnica brasileira na área de Treinamento e Esportes de Força. Graduada em Ciências Biológicas pela Universidade de São Paulo, mestrado em Ecologia Química, Doutorado em Sociologia da Ciência e Pós-doutorado pela Virginia Polytechnic Institute and State University. Atleta de alto rendimento em Levantamento Básico, campeã mundial, Presidente da Aliança Nacional da Força e representante nacional do World Powerlifting Congress. www.mariliacoutinho.com