– Alô … é o “X”?
– Sim, quem é?
– Opa, aqui é o “Y”, foi o “Z” que me indicou seu telefone.
– Opa… e aí, FIRMEZA?

E assim, assíduos leitores da Revista Musculação & Fitness, começa mais uma encomenda, mais uma negociação, da própria saúde! Quem não está com fone ouvindo suas músicas na hora do treino, ou em locais país afora onde o som das anilhas pesadas não abafa toda conversa fiada, já deve ter ouvido lendas sobre como pessoas comuns conseguiram substâncias farmacológicas com objetivos ergogênicos.

No local onde existem ouvidos atentos, sabe-se que sempre tem um “Z” (profissional ou não, e muito sabido) que indica onde ou com quem comprar, e, se você ligar e disser quem indicou, ganha ainda um precinho camarada. Esse mesmo “Z” já orientou você, baseado no próprio “know-how” ou mesmo na “ciência” (?) sobre um bom ciclo, adequado para seu tamanho, estado de treinamento e objetivo, muito embora o “firmeza” também possa complementar com algumas excelentes dicas extras.




Aquisição de esteroides anabolizantes

Nesse contexto, inúmeras curiosidades sempre estão envolvidas sobre a sonhadora, pitoresca e perigosa aquisição:

1) da Origem: muitas vezes o “firmeza” diz que é importado, de algum lugar famoso, o que torna o produto único e especial, afinal de contas, você – que também é especial – está conseguindo o que muitos não conhecem ou não têm acesso… como um poder extra, ou o segredo do sucesso… Quanto mais de longe vier, mais difícil de conseguir ou mais fino o local… melhor!

2) da Fabricação: aparentemente sempre são fabricadas em pequenas quantidades (o que, de novo, torna o produto especial). Sem mencionar o discurso sobre o bom e renomado laboratório responsável pela fabricação que traz, além da credibilidade do nome, na caixinha ou no isopor, lacrada, até um adesivo holográfico!

3) da Disponibilidade: o que você quer, têm! Não importa o que, mas têm! E dá para marcar data para a entrega. Se, por acaso, não tiver o produto que você quer, ele manda buscar, ou tem outro “firmeza” amigo que vende ou trabalha na produção e poderia ceder alguns exemplares. 4) do Preço e do Pagamento: esqueça o cheque ou as maquininhas de cartão de débito ou crédito. Produto entregue é produto pago, em dinheiro e sem nota fiscal!… Mas tudo bem, já que foi o “Z” que indicou e você está chorando preço, ganha o desconto… e se torna especial mais uma vez…

5) da Aceitação e Garantia: é curioso como o produto sempre está na moda, está todo mundo usando (se for novidade) com excelente resultado (de preferência deixando o usuário “gigante e rasgado”), com menos risco, e faz parte das substâncias clássicas e consagradas que grandes nomes de todos os tempos já utilizaram com enorme sucesso. No entanto, nunca ouvimos dessas pessoas nenhum relato de quem usou e não teve sucesso ou quais as complicações de que já se teve conhecimento até então.

 

Esteroides Anabolizantes - A Saga do Firmeza cuidados

Existe fornecedor de anabolizantes?

Os compradores desinformados que colocam sua saúde em risco em troca de um sonho milagroso, seguro, rápido e eficiente, não param para pensar e checar se existe mesmo o laboratório que fabrica o produto, bem como se seu comércio é permitido.

Muitos laboratórios de substâncias que ouvimos que circulam por aí nunca existiram, e às vezes, os que existem não fornecem mais determinada substância ou produto, porque não fabricam mais ou nunca chegaram a fabricar.

Por mais que o produto possa ser sugestivo e aparentemente adequado, qual foi o padrão de conservação deste produto até chegar a você? Quem realmente produziu? Foram mantidos todos os constituintes da fórmula original – fazendo dele um exato similar? Existem contaminantes pela produção alternativa? E o padrão de esterilidade e adequação sanitária do material produzido?

A maioria dessas substâncias não é encontrada nem em grandes farmácias e especialmente em grandes quantidades, mas o “firmeza” tem sempre o que e quanto você precisa. Já refletiu sobre isso?

 

Relatos científicos sobre esteroides anabolizantes

Cada vez mais encontramos na literatura científica relatos de caso sobre o abuso e mau uso de esteroides anabolizantes, com seus devidos efeitos adversos e por vezes letais. Um estudo do Instituto de Bioquímica da Universidade de Colônia (Alemanha) (publicado em Journal of Analytical Toxicology, Vol. 32, Abril 2008), descrevendo substâncias apreendidas (de diferentes países), apontou que mais de 25% não continham exatamente o que os rótulos propunham.

Também foram encontrados diversos contaminantes altamente nocivos à saúde, especialmente no que engloba a “sobrecarga hepática” para metabolização dessas substâncias. A avaliação da saúde em geral, função hepática, renal, cardiovascular e respiratória, endócrina…, quando se pensa na administração de determinadas substâncias, são itens normalmente ignorados. Os recursos ergogênicos farmacológicos são apenas uma esfera do objetivo hipertrofia muscular, que deveria incluir previamente o adequado treinamento, descanso, nutrição, suplementação e genética favorável.

Os erros mais comuns do insucesso de ganho de massa muscular estão em treino e alimentação inadequados, normalmente pela ausência da orientação de um bom profissional (Educador Físico, Nutricionista, Médico). A falta de acompanhamento médico de saúde geral, somada ao uso inadvertido de farmacológicos, incluindo drogas falsificadas, ciclos com dosagens inadequadas (geralmente excessivas) e por períodos de tempo prolongado, engrossa o número de publicações científicas sobre relatos de caso com efeitos adversos no uso de anabolizantes.

Além disso, frequentemente são utilizadas associações de fármacos. Muitos deles, apesar de ditos neutralizadores de efeitos adversos (que muitas vezes ocorrem pelos contaminantes de substâncias falsificadas ou pela dosagem excessiva), acabam por sobrecarregar ainda mais o organismo (o fígado e os rins, por exemplo), aumentando a chance de efeitos colaterais para a saúde.

 

Esteroides Anabolizantes - A Saga do Firmeza medicamento

Uso de esteroides anabolizantes como medicamento

Quando devidamente prescritos e utilizados, não são nem “bons” nem “maus”, são apenas medicamentos, com farmacologia específica, indicações e contra-indicações, que devem ser adequadamente monitorados por profissional qualificado e habilitado.

Existe um crescente número de estudos sendo realizados com fins terapêuticos, com inúmeros benefícios e sem a presença de efeitos adversos clinicamente significantes, ou, quando ocorrem, são transitórios e dosagem dependentes.

Ainda não podemos afirmar a segurança da sua utilização em longo prazo para a saúde. Além disso, nossos recursos atuais (exames laboratoriais e de imagem) podem não detectar precocemente alterações adversas pela utilização inadequada.

Fiquem atentos, coloquem em seus ouvidos o som de uma boa música ou das anilhas pesadas, elejam profissionais qualificados para cuidar da sua saúde… não deem ouvidos ao “firmeza”… e muito cuidado ao procurar por alguns “sonhos”, para não transformar sua vida num grande pesadelo!

Nota do editor

Prof. Eugenio KoprowskiÉ comum pessoas desinformadas e alheias ao meio, enganadas ou espertalhões querendo enganar, atribuírem o alto nível de muscularidade e o excepcional desempenho dos grandes atletas ao uso de drogas. Antes de tudo, esta é uma grande injustiça que se comete aos méritos destes atletas.

Nas especialidades esportivas em geral, o fator determinante do sucesso é uma propensão genética favorável para aquele esporte, o que envolve muita coisa além da facilidade de adquirir massa muscular acima da média e possuir estrutura esquelética privilegiada.

São necessários também treinos pesados e frequentes por muitos anos seguidos, grande motivação psicológica, abstenções de toda a natureza, por vezes até de vida social, resistência a lesões, nutrição bem balanceada e contínua, programas de treinamento adequados e suficiente repouso. Um atleta de alto nível treina diariamente como a maioria jamais treinou em toda a vida e passa por privações que a maior parte nem em sonho faria.

Resultados excepcionais em massa muscular são atingidos por poucas pessoas que possuem uma composição genética adequada e que por esta razão reagem melhor ao treinamento do que os demais. Não são resultantes do uso de drogas, e divulgar o contrário é o maior estímulo ao uso por parte da população em geral. É necessário acordar para esta realidade e ter consciência de que todos podem se beneficiar com exercícios físicos de diversas maneiras, mas grandes volumes musculares são para poucos, seja com ou sem uso de drogas.

Pode-se verificar com facilidade que grande parte dos usuários muitas vezes utiliza mais drogas que a maioria dos atletas jamais usaram, mas nunca conseguem chegar sequer perto dos níveis de massa muscular e definição destes.

O simples fato de existirem poucos campeões em relação ao número de usuários de drogas já comprova o fato. Há anos ouço afirmações do tipo: “Na academia onde treino, ‘todo mundo’ usa”. Mas, se pergunto quantos campeões tem ali, a resposta é invariavelmente a mesma: NENHUM.

– Prof. Eugênio Koprowski

Dr. Lucas Caseri

Especialista em Medicina do Exercício e do Esporte pela SBMEE/CFM. Especialização em Fisiologia do Exercício e Treinamento Resistido na Saúde na Doença e no Envelhecimento (CECAFI-FMUSP), e em Fisiologia do Exercício (CEFE – UNIFESP). Pós-graduando em Medicina Física e Reabilitação pela UNIFESP-EPM. Especializando em Nutrição Aplicada ao Exercício – EEFEUSP.