Quando minha filha tinha cinco meses, escutei um ruído abafado vindo do quarto dela e, em seguida, um chorinho de má vontade. Corri para lá, onde encontrei um bebê perplexo, sentado no chão. Como ela foi parar lá? Como saiu do berço, onde estava dormindo? Ora, era óbvio: ela tinha caído de ponta cabeça no chão e o barulho foi o choque do crânio dela com o piso coberto por carpete. “Meu deus! Matei o bebê!” pensei, como toda mãe de primeira viagem.

Bobagem: não matei, está aí, viva há 24 anos. Mas aprendi uma coisa: a grade do berço estava baixa o suficiente para que ela conseguisse se erguer e se propulsionar para frente, caindo para fora. Com cinco meses, ela não ficava de pé sozinha, naturalmente. Mas foi capaz de erguer seu próprio peso corporal segurando nas grades do berço.

Com o tempo, ela foi automatizando as tarefas motoras de escapar do berço até que desisti e deixei a grade só como anteparo para que ela não caísse dormindo.

Minha filha não é nenhum ET: toda criança faz isso. As fotos abaixo são imagens captadas por pais de crianças escapando de berços. Observem a força e resistência da pegada destes bebês, a capacidade de erguer seu próprio peso corporal e a desenvoltura em realizar manobras que envolvem complexo processamento espacial (propriocepção).

Força Inata1

Quantos adultos você conhece que erguem seu peso corporal com um braço só? Quantos sobem e saltam obstáculos de sua altura? Seria justo, então, dizer, que, em média, os bebês são proporcionalmente mais fortes do que nós?

Observe também as figuras abaixo. São imagens domésticas de bebês agachando. Em geral, agachando para brincar – seja para brincar agachados, com algo que se passa no chão, ou para agarrar algo que deve ser transportado para outro local. A técnica utilizada pelos bebês para transportar objetos instáveis, como a bolsa da tia, é semelhante à técnica, treinada à exaustão, dos atletas de Strongman para a prova de carregamento de sacos de areia.

Força Inata 2

Se observarmos os bebês apanhando algo do chão e levantando, vemos que eles agacham para melhor fazer a pegada no objeto e então elevam o quadril o suficiente para a alavanca precisa na extensão do quadril. Ou seja? Realizam um levantamento terra.

Uma vez ensinei as duas filhinhas de um casal de amigos a fazer supino com um cabo de vassoura. Uma tinha 5 e outra tinha 8 anos. Ambas se colocaram no banco e, sem que eu dissesse nada, aduziram as escápulas e contraíram os glúteos, em técnica perfeita.

Peraí: por que é que eu passo meses ensinando adultos a agachar, supinar e fazer levantamento terra se, naturalmente, todo bebê já sabe fazer isso?

Sempre botei a culpa na cadeira. A cadeira é um objeto terrível, pois limita a flexão do nosso quadril a 90º quando naturalmente agacharíamos para fazer qualquer coisa. Com o tempo, ocorrem perdas tanto musculares – atrofia da musculatura extensora de quadril – como neurais, e sobre essas não sabemos nada. Com estas perdas, todo nosso controle da postura e locomoção bípede é comprometido.

Tim Anderson e Geoff Neupert, autores de “Original Strength” (2013) sugerem que nascemos programados para o movimento integrado. Em outras palavras, nascemos feitos para o recrutamento eficiente de todas as nossas alavancas para a harmônica e coordenada execução forte de movimentos. Segundo os mesmos autores, também nascemos com a capacidade de eficientemente explorar as três dimensões do espaço. É o processo de “civilizar” nossos filhos nascidos com corporalidade perfeita que a degenera.

O desenvolvimento motor é descrito pelos especialistas segundo estágios. Abaixo temos uma tabela que reúne contribuições de diferentes autores:

Força Inata 3Tabela de desenvolvimento motor segundo Berk (2012), Gowers (2005) e Developmental Milestones Chart (2007)

Não há muita discrepância entre os autores quanto a tais marcos. Segundo um trabalho recente, no entanto (Atun-Einy et al 2013), o desenvolvimento motor está fortemente associado à motivação. Observando 27 bebês de 7 a 12 meses, os autores catalogaram o grupo segundo quatro marcos de desenvolvimento motor e os correlacionaram a indicadores de motivação. Crianças fortemente motivadas foram mais precoces.

O que isso quer dizer? Para os autores, ajuda a criar terapias para ajudar crianças com atraso no desenvolvimento. No entanto, há outras possíveis conclusões.

Os trabalhos do educador britânico Ken Robinson (1998, 2001) mostram que, em estágios precoces, as crianças são pouco diferenciadas quanto à sua (extrema) capacidade criativa. Ao longo dos anos, a pontuação média nos indicadores de criatividade vai caindo, fato que o autor correlaciona com os efeitos do sistema educacional.

Talvez possamos emprestar a proposta de Robinson para pensar o desenvolvimento motor e força humanos: os bebês nascem muito fortes e capazes de desenvolver suas capacidades motoras, mas só o farão se houver suficiente motivação. Indo mais longe, se faltar desmotivação.

A desmotivação, tanto para a criatividade e capacidade intelectual como para a força e desenvoltura corporal vêm da repressão proporcionada por nosso ultrapassado sistema educacional. Por sistema educacional, aqui, vamos compreender tanto o sistema formal institucional escolar (que senta e imobiliza crianças por horas seguidas, inibindo sua inata capacidade de agachar-se, levantar-se e mover-se pelas três dimensões do espaço) como a família e a vida social (casa, carro, ônibus, lojas, ensino da “maneira certa” de comer, mover-se na casa e no espaço social, etc).

O que fazer?

Segundo Anderson e Neupert, podemos recuperar esta “força original” refazendo os passos do “esquecimento” social da mesma.

Mas será que não deveríamos pensar em não perdê-la? Em educar nossas crianças de forma a não desmotivá-las e usurpar a força com que nascem? Não teríamos seres humanos naturalmente bem mais fortes, criativos e capazes?

Um pensamento sombrio me ocorre: será que nossas sociedades comportam seres humanos assim, tão desenfraquecidos?

Força Inata 4João Pedro, 3 anos, força natural


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Anderson, T. & Neupert, G. 2013. Original Strength: Regaining The Body You Were Meant To Have [Kindle Edition]
Developmental Milestones Chart. The Institute for Human Services for The Ohio Child Welfare Training Program. October 2007
Berk, Laura E. (2012). Infants and children: Prenatal through middle childhood.
Allyn & Bacon.
Seminars in child and adolescent psychiatry (second edition) Ed. Simon G. Gowers.
Royal College of Psychiatrists (2005)
Atun-Einy O, Berger SE, Scher A. Assessing motivation to move and its relationship
to motor development in infancy. Infant Behav Dev. 2013 Jun;36(3):457-69.
Robinson, K. Out of Our Minds: Learning to Be Creative. Capstone 2001
Robinson, K. All Our Futures: Creativity, Culture, and Education (The Robinson Report) 1998