Passamos por uma grande revolução no que diz respeito aos modelos de estereótipos físicos femininos. Ou seja, antes os padrões de beleza feminina eram estampados por mulheres magras, esbeltas e sem músculos aparentes no corpo, porém, hoje houve uma transição do que é considerado belo e atraente e, com o constante reforço da mídia, entraram em jogo os padrões físicos de mulheres fortes, com grandes volumes musculares esculpidos nas academias.

Desse modo, o que antes era alvo de injúrias e preconceitos, se tornou o padrão de beleza feminina que estampa propagandas de TV, capas de revista e outdoors.

A ideia de se buscar um corpo desenhado muscularmente passou a ser a opção da maioria das mulheres, não só as mais jovens, mas também as mais maduras.

Podemos dizer que estamos na era da ascensão ao fisiculturismo, em que o esporte passou a ser disseminado e valorizado, tendo como público alvo homens e mulheres aderindo às competições.

Com isso, podemos dizer que o público feminino vem sendo seduzido por substâncias que prometem trazer em pouco tempo uma mudança expressiva na composição corporal, esculpindo músculos e reduzindo os percentuais de gordura, os famosos hormônios esteroides anabolizantes. Mas será que eles realmente fazem milagres no corpo feminino?

Mulheres e Hormônios Anabolizantes - medicina

Os hormônios esteroides anabolizantes não foram criados com o intuito de serem usados como fábricas de músculos e sim como medicamentos para diversos fins terapêuticos, como, por exemplo, na reposição hormonal masculina, mediante algum tipo de alteração testicular ou neurológica (hipotálamo-hipófise), que leva ao declínio hormonal de testosterona, sendo muito comum em idosos, mas que pode acometer os mais jovens também.

Podemos dizer que os problemas não estão mirados unicamente no uso desses hormônios anabolizantes e, sim, na forma como são usados.

Frequentemente, atendemos pacientes com histórico de uso dos hormônios anabolizantes com a esperança de consertar algumas cicatrizes deixadas pelo uso inadequado, já que foram instruídos por pessoas desconhecedoras do assunto e se submeteram a doses hormonais excessivas, utilizaram tipos de drogas inadequadas ao uso feminino e acabam trazendo diversos efeitos colaterais, muitas vezes irreversíveis. A maioria dos efeitos negativos aparentes na mulher diz respeito ao que chamamos de efeitos androgênicos masculinizantes e incluem um arsenal de sinais clínicos e sintomas, dentre eles:

  • Disfonia Vocal: Ocorre pela ação da molécula DHT (di-hidrotestosterona) na corda vocal, trazendo o espessamento da mesma e criando a famosa voz grossa feminina.
  • Hipertrofia clitoriana: Fenômeno desencadeado pela molécula DHT, na qual ocorre um crescimento do órgão genital clitoriano e acaba se projetando ao meio externo.
  • Disfunções com desequilíbrios hormonais: muito comum a presença de atrasos ou ausências no ciclo menstrual feminino. Essa ausência é denominada amenorreia primária ou secundária, que pode se estender por dias ou meses e está ligada a alterações do ritmo hormonal feminino.
  • Hirsutismo: efeito virilizante na mulher, que é a ocorrência do crescimento de pêlos por todo o corpo.
  • Irritabilidade: efeito colateral frequentemente observado, é a diminuição do limiar de tolerância, trazendo a irritabilidade comportamental como consequência. Isso ocorre por uma ação generalizada da testosterona em determinadas áreas do cérebro, responsáveis pelo controle emocional.
  • Aparecimento de acnes (espinhas): ocorre pelo aumento da testosterona e produção de óleos pela glândula sebácea, onde também observamos o crescente aumento da oleosidade capilar, podendo levar a quedas de cabelo em mulheres com predisposição genética para tal.
  • Edema Corporal e Facial: inchaço ou retenção de líquidos, que algumas mulheres podem vir a apresentar em todo o corpo, incluindo o rosto, pelo uso de drogas inadequadas e doses excessivas.
  • Hepatotoxicidade: a maioria dos esteroides anabolizantes tem uma ação lesiva ao fígado, pois é responsável por sintetizá-los. Nesse caso, ele é um dos primeiros órgãos a sofrer um desgaste com o uso de esteroides.
  • Alterações lipídicas e cardiovasculares: outra característica muito importante de ser ressaltada é o aumento da produção de colesterol total e colesterol LDL, considerado o mau colesterol, podendo predispor as mulheres a eventos cardiovasculares, como um aumento da pressão arterial, acidente vascular cerebral (AVC) ou infarto agudo do miocárdio.

Mulheres e Hormônios Anabolizantes - testosterona

Os esteroides anabolizantes são derivados do hormônio masculino testosterona, que por sua vez possui uma ação androgênica e anabólica no corpo humano. Existem diversos tipos de hormônios anabolizantes no mercado com variação em suas cadeias moleculares. Alguns se mostram um pouco mais toleráveis para uso no público feminino, porém, outros se mostram como verdadeiros venenos, podendo trazer diversos efeitos masculinizantes. Exatamente nesse quesito, destaco a importância do acompanhamento de um especialista na área, para que o mesmo possa analisar cada caso especificamente e indicar um tratamento eficaz e ao mesmo tempo seguro para a saúde da mulher.

O conhecimento da fisiologia endócrina, que se refere ao funcionamento hormonal humano e à bioquímica farmacológica dos medicamentos, faz uma enorme diferença quando tratamos de pacientes do sexo feminino, uma vez que a mulher possui particularidades hormonal e neurológicas que devem ser levadas em consideração no eventual estímulo da performance física, seja com uso de hormônios anabólicos ou não.

Lembrando que, ao contrário do que muitos acreditam, altas doses de hormônios anabolizantes nem sempre representam um aumento no crescimento muscular. Isso acontece porque no sistema hormonal há um fenômeno chamado dessensibilização descendente, no qual os receptores intracelulares que se ligam ao hormônio para gerar as reações de anabolismo acabam internalizando-se ao núcleo da célula em presença de grandes concentrações hormonais, deixando de surtir o efeito na intensidade anabólica esperada.

Mulheres e Hormônios Anabolizantes

O uso esportivo, competitivo ou não, de hormônios anabolizantes pelas mulheres muitas vezes está associado à má instrução de pessoas que indicam sem conhecimento doses suprafisiológicas extremamente altas com tipos de drogas inadequadas para a mulher, colocando em risco o organismo pela maior exposição aos seus efeitos colaterais. Nesse caso, a escolha de uso dos anabolizantes ou não é algo pessoal e deve ser analisada com grande cuidado, principalmente em relação aos prós e contras desses medicamentos no organismo feminino.

Se a opção for o uso dos hormônios anabolizantes, que seja com acompanhamento e orientação de um profissional da área. Dessa forma, pode ser feito um trabalho com resultados estéticos na mulher, com riscos bem menores.

Um dos grandes desafios da fisiologia esportiva é criar meios de se ultrapassar os limites do desempenho físico humano e anabólico, através de estudos e pesquisas, fórmulas e/ou substâncias que possam atuar anabolicamente no organismo, minimizando ao máximo a produção de efeitos adversos indesejáveis.


Referências:
VILLAR, L. Endocrinologia Clínica. 3ª ed. Ed. Guanabara Koogan, 2006.
MCARDLE, W.D.; KATCH, F.I.; KATCH, V.L. Fisiologia do Exercício: Energia, Nutrição e Desempenho Humano. 5ª ed. Ed. Guanabara Koogan, 2003.

Cirurgião e Traumatologista Facial. Especialista em Fisiologia Humana e Fisiologia Esportiva com foco na Metabologia. Especialista em Nutrição Esportiva. Assessor para criação de fórmulas para empresa de suplementos. Contato: [email protected] / Facebook: Dr. Edson Rosa.