Um dos movimentos mais complexos da musculação é o Levantamento Terra, exercício básico que constitui o levantamento de uma determinada carga do chão com a utilização dos membros interiores, tronco e membros superiores, bem como com a utilização de grandes grupos estabilizadores para o movimento. Pode-se dizer que, em geral, o levantamento Terra é um exercício o qual recruta o corpo inteiro. Obtendo diferentes variações as quais podem ser estudas separadamente, este tem por base um parecer básico do levantamento Terra tradicional bem como sua análise cinesiológica simples visando o trabalho realizado com a barra (barra reta olímpica e até mesmo barra hexagonal), uma vez que são possíveis inúmeras variações tais quais a execução com halteres, cabos entre outros objetos e/ou equipamentos [1].




Os primeiros anos do levantamento Terra, podem ser descritos na antiguidade com histórias de Milo de Creta, Hércules ou mesmo Sansão, que retiravam objetos pesados do chão [7]. É válido saber que, o levantamento terra em suas origens, inclui movimentos como o agachamento entre outros os quais são anatomicamente presentes na história do homem.

Apesar do levantamento de pesos sempre ter feito parte dos jogos olímpicos, somente em1896 foram estabelecidos pequenos eventos os quais contemplavam o levantamento Terra, por exemplo, tais quais o “Silver Dollar Deadlift”. Esse evento era feito com o levantamento de caixas do chão. Neste mesmo ano, foram inseridos levantamentos de peso nas olimpíadas. A partir disso, foram estabelecidas novas regras que se modificaram com o longo dos anos e possibilitaram novas criações e novos eventos do levantamento terra [7].

Hoje, existem inúmeros eventos específicos de powerlifting, em especial, bem como, de strongman e também, esse exercício faz parte de outros movimentos de algumas modalidades tais quais o weightlifting em sua modalidade de arremesso, onde o movimento pode ser melhor observado.

A primeira instância principal do movimento em seu foco de trabalho é com a flexão do quadril (solicitando a articulação do quadril, entre a cabeça fêmur e o osso do quadril), mantendo as curvaturas da coluna vertebral anatomicamente bem definidas. É importante que esse movimento ocorra adequadamente, pois, em situações de hipercifose ou de solicitações extremas de outras regiões da coluna, que não a lombar, há alto risco de lesão intervertebral, nos discos. Além disso, a musculatura extensora do pescoço (em especial dos músculos extensores tais quais o esplênio da cabeça, o esplênio do pescoço) deve estar devidamente ativada para que não haja quaisquer tipos de instabilidades durante a fase inicial do movimento o que pode gerar compressão intravertebral nos discos articulares da região cervical. Tal região deve sempre estar alinhada com o restante da coluna no movimento.

Análise Cinesiológica do Levantamento Terra - old

É importante ainda, que não haja movimentações inadequadas do osso sacro no movimento para que haja um perfeito equilíbrio da coluna lombar.

O levantamento terra pode ser definido como realizado em seis principais momentos, sendo eles:

– A posição agachada, com uma pequena abdução das do fêmur no plano frontal e no eixo ântero-posteirior, pés afastados com pequena rotação externa no eixo longitudinal no plano transversal, onde a manutenção isométrica, a qual ocorre a estabilização geral do corpo, por parte dos membros inferiores, do tronco e dos membros superiores. Neste momento, as mãos (todos os ossos do carpo, metacarpo e falanges) e os antebraços (rádio e ulna) podem estar, em supinação e/ou pronação a depender da preferência do atleta. Para que esses membros estejam em pronação são solicitados os músculos pronador redondo e pronador quadrado. Para que estejam em supinação, solicita-se o músculo supinador do antebraço. O úmero permanece em estabilidade no movimento. Essa movimentação de supinação e/ou pronação ocorre no eixo longitudinal no plano transversal.

As articulações envolvidas estão as articulações do punho, carpo, metacarpo, intermetacarpo, falângicas e interfalângicas

Porém, para que haja a fixação da pegada no equipamento, todos os flexores do antebraço estão em ação. Esses músculos envolvem o flexor profundo dos dedos, o flexor superficial dos dedos, o flexor ulnar do carpo, o palmar longo e o flexor radial do carpo. Esses movimentos ocorrem no plano sagital no eixo latero-lateral.

Dificilmente neste momento há riscos de lesões, entretanto, sua posição é essencial para a manutenção do exercício que é fundamental para a prevenção das mesmas e devido trabalho das regiões solicitadas.

– A posição de progressão para o levantamento com as primeiras compressões do tronco e dos membros superiores. Neste instante, são ativados músculos que promovem a adução (retração) da escápula tais quais o trapézio, o romboide maior e menor, e o músculo grande dorsal. Neste momento, são ativados o osso da escápula, o úmero em uma pequena extensão. Essa protração das escapulas ocorre no eixo Z, no plano frontal. A articulação grandemente solicitada para a estabilização é a escápulo-toráxica.

– Fase de retirada das pernas do solo: Nesta fase, são solicitados grandemente os músculos da região inferior do corpo Com pequena flexão dos extensores do tarso e extensão do gastrocnêmio, sóleo e plantar, em eixo lateral no plano mediano, (além da flexão de alguns músculos posteriores profundos do quadril, como o sartório, pectíneo, obturador externo  e interno, gêmeo superior e inferior, além dos adutores, que estão na região medial da coxa. etc) no momento inicial do exercício, os primeiros músculos realmente ativados são os isquiotibiais (bíceps femoral, semitendíneo e semimembranáceo), pois, extamos realizando um exercício em cadeia fechada e esses participarão ativamente da extensão dos joelhos, bem como da ativação da articulação femoropatelar (assim, no momento de extensão dos joelhos, a patela subirá, se anteriorizará e se lateralizará), principalmente abaixo dos 90º.

Após sua solicitação, começam a ter ativados os músculos posteriores do quadril tal qual o glúteo mínimo, o glúteo médio e o glúteo máximo. É importante salientar que durante a extensão dos joelhos há ação do músculo poplíteo [2]. Esse movimento de extensão ocorre no plano frontal e sobre o eixo lateral.

Após a solicitação desses músculos, entram a ativação dos músculos do quadríceps femoral, como o reto femoral, Vasto lateral, vasto intermédio e o vasto medial. Esses músculos em conjunto com o tensor da fáscia lata da coxa em dada instância do movimento, concluem da extensão da articulação do joelho, composta primordialmente entre o fêmur, tíbia e fíbula.

É importante salientar que, em um bom levantamento terra, o movimento ocorre primordialmente iniciando-se da extensão dos joelhos e não com a extensão lombar.

Nesse momento, são solicitador músculos auxiliares como os do bíceps braquial, coracobraquial e mesmo o braquial. É importante salientar que não é infrequente que haja rupturas, em especial na inserção do bíceps durante essa fase do movimento, portanto, a subida sem a sobrecarga nos mesmos é essencial. Neste momento, os principais riscos de lesão estão na região posterior das coxas, visto que os músculos que sofrerão maior ativação nesse instante são os isquiotibiais. Rupturas, em especial no bíceps femoral são as mais frequentes.

Análise Cinesiológica do Levantamento Terra - mulher

– A fase de execução, propriamente dita: No levantamento Terra, muscularmente falando, talvez os eretores da espinha sejam os músculos mais importantes do movimento, capazes da gerar a estabilidade do tronco, respeitando as curvaturas anatômicas naturais da coluna no movimento, em especial da região lombar que é a mais solicitada no exercício. Entre os músculos observados referentes aos eretores a espinha e da coluna vertebral como um todo, observa-se grande solicitação do iliocostal, longuíssimo, espinhal, dos semiespinhais, multifídios, Rotadores, Interespinhais e Intertransversários (consideram-se ainda os músculos extensores do pescoço supracitados). Além da estabilidade a qual promovem na coluna eles são imprescindíveis para a ativação da extensão e posteriormente da hiperextensão da mesma. Essa manutenção promovida por esses músculos é indispensável para a manutenção dos discos intervertebrais, mantendo sua estrutura anatômica, sem riscos de lesões, em especial na região de L4 eL5.

A região abdominal também é solicitada durante o movimento, visto que, músculos como o quadrado lombar e do transverso do abdômen. O músculos transverso do abdômen possui uma face tendínea e, possui também fibras transversas longitudinais ao eixo do corpo e, quando contraídas, há uma compressão da face tendínea ao ventre com a região lombar (gerando uma pressão intra-abdominal). O reto abdominal, músculo de trabalho dinâmico é responsável pela movimentação da região lombar ou pela movimentação pélvica. Entretanto, no levantamento terra, ele promove uma pressão intra-abdominal severa, a qual é essencial para a manutenção da postura no exercício, assim como o transverso do abdômen, cuja função será comprimir e suportar as vísceras.

Toda essa compressão é válida para a utilização da manobra de Valsalva, comum neste tipo de movimento explosivo. Neste instante e, até o final do movimento em sua fase concêntrica, o músculo tríceps braquial, bem como o musculo ancôneos são ativados simultaneamente. É importante salientar que, apesar do bíceps braquial estar em atividade, ele não está promovendo a flexão do cotovelo, portanto, não há contradições em dizer que ambos estejam sendo ativados simultaneamente.

Neste momento, a estabilização dos músculos do core são de extrema importância, além de que, sem que haja um devido equilíbrio entre eles, o risco de lesões é extremamente alto, principalmente na região posterior do corpo. Ao finalizar o movimento, normalmente faz-se uma leve hiperextensão da região lombar bem como constarem-se os músculos dorsais do tronco, favorecendo a manutenção das escápulas em sua retração. Nesta fase, quando bem estabilizada, dificilmente há chances de lesões, visto que a musculatura já estará devidamente ativada pressionando os discos intervertebrais, e mesmo as vísceras [1].

Análise Cinesiológica do Levantamento Terra - gym

Como é possível observar abaixo, diferentes posicionamentos do levantamento terra podem ocasionar diferentes graus de compressão nos discos intervertebrais. No estudo de Nachenson and Elfstron [3], foi proposto que:

AtividadeForça nos discos intervertebrais (Lbs)
Abaixado112
Ereto225
Descida rápida na fase excêntrica315
Levantando 44lbs com a coluna ereta e joelhos flexionados (como proposto na análise)416
Levantando 44lbs com os joelhos retos e a coluna flexionada876

Assim, conclui-se que o levantamento Terra é muito mais do que um exercício de recrutamento lombar, mas ainda, é um exercício o qual exige grande força dos membros inferiores, em especial.

Na fase excêntrica do movimento, há uma inversão dos trabalhos musculares, iniciando primeiramente do relaxamento final dos músculos dorsais, seguido de uma flexão dos quadris bem como uma flexão dos joelhos. Normalmente, durante esse movimento, os mesmos grupamentos musculares que foram ativados na fase excêntrica do movimento, ou seja, durante a fase de extensão do corpo, participam do mesmo, porém, em sentido de luta contra a gravidade, ou seja, resistindo a força da gravidade atuante sobre o peso.

É necessário um perfeito equilíbrio dessa força, pois, do contrário, há grandes riscos de lesões, especialmente na região cervical e lombar, não precisamente nos discos intravertebrais, mas, nos próprios músculos eretores da espinha. Geralmente, percebe-se que altas velocidades podem ocasionar lesões tais como estiramento muscular, pela baixa resposta dos músculos e sua pouca deformação [4][5][6].

Por fim, os últimos músculos que entram em relaxamento são os posteriores e anteriores das coxas, pois, neste momento de flexão dos joelhos estão trabalhando de maneira passiva ao movimento, apenas em controle a carga. Continua-se, entretanto, durante todo o movimento (tanto concêntrico quanto excêntrico) a ativação dos músculos da região posterior e anterior das pernas (tíbia e fíbula).

Nota: Obviamente aqui, devem ser considerados aspectos básicos e que não levam em consideração as características individuais ou mesmo as variações presentes nos diferentes tipos de levantamento Terra. Essa, portanto, é uma análise teórica e didática, mas, muitas outras variações podem ocorrer na prática de tal gesto esportivo.

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Referências
1. BIRD, Stephen; BARRINGTON-HIGGS, Benjamin. Exploring the Deadlift. 2010. Strength & Conditioning Journal: April 2010 – Volume 32 – Issue 2 – pp 46-51. Disponível em: <http://journals.lww.com/nsca-scj/Fulltext/2010/04000/Exploring_the_Deadlift.4.aspx>. Acesso em: 02 mar. 2015.
2. CASILLO, Francesco. Kinesiological and Anatomical Approach to Deadlift. 2008. Disponível em: <http://www.bodybuilding.com/fun/casi4.htm>. Acesso em: 02 mar. 2014.
3. Nachenson and Elfstron, “measurments of Forces in the Human Spine and their Clinical applications”, Perspectives in Biomedical Engineering. ed. R.N. Kenedi (Baltimore:University Park Press), p. 114.
4. HAMIL, J.; KNUTZEN, K. M. Bases biomecânicas do movimento humano. São Paulo:
Manole, 1999.
5. WHITING, W. C.; ZERNICKE, R. F. Biomecânica da lesão musculoesquelética. Tradução de
Giuseppe Taranto. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2001.
6. NORDIN, M.; LORENZ, T.; CAMPELLO, M. Biomechanics of tendons and ligaments. In:
NORDIN, M.; FRANKEL, V.H. Basic biomechanics of the musculoskeletal system. 3.ed.
Philadelphia: Lippincott Williams & Williams, 2001.

 

Advanced Nutrition Specialist pela International Federation of Bodybuilding, Graduado em Inglês pela Stanboroung School – Watford – Londres (UK) e Atleta de fisiculturismo. Contatos: fb.com/marcelosendonofficial1, marcelosendon.k6.com.br, Instagram @marcelosendon.