Pra vender camisetas sim!

Quem aqui já ficou dolorido após um treino de musculação? Mesmo que isso não tenha acontecido no dia seguinte? Na verdade é bem comum que isso acontece com maior intensidade 48hs após o treino, não é? Pois bem, mas isso é fundamental? Já vi muita gente na academia dizendo que o treino foi ruim porque ele não saiu de lá completamente acabado, e principalmente porque não ficou absurdamente dolorido no dia seguinte. Acredito que o grande equívoco aqui é que a expressão que eu usei lá no título desse texto está sendo diretamente associada (de forma completamente equivocada) a treinos de qualidade. O treino bom é o que arrebenta.

Não faz o menor sentido…

Não estou dizendo que as microlesões não poderiam levar à hipertrofia. Levam sim. Mas acreditar que essa é a única, ou a melhor via para conseguir tal efeito é no mínimo falta de informação. A via de hipertrofia disparada pela ocorrência de microlesões envolve a ação das células satélites. Elas são atraídas ao local onde essas pequenas lesões ocorreram e sintetizam mais proteínas muscular. Porém essa é “UMA” e não “A” via de hipertrofia. Até porque parece que “A” via não existe. Entre as outras opções para o desencadeamento dos processos que levam ao aumento da massa muscular podemos citar a via Akt/mTOR (gerada por estímulos elétricos de alta e baixa frequência, associados à redução do glicogênio e aumento do IGF-1), a via da Calcineurina/nFAT (desencadeada pela inundaçãoo celular por íons de Ca2+), a via das MAPK’s (incentivada pela tensão gerada no exercício), a via da inibição da Miostatina entre outras que são menos estudadas. Hipertrofia não é SÓ microlesões, por favor!

Flann e colaboradores (2012) propuseram e realizaram um experimento para verificar a necessidade e a influencia das microlesões para que o aumento da força e da massa muscular pudesse ser conseguido. Eles treinaram por aproximadamente 10 semanas dois grupos de indivíduos: um grupo de novatos e um grupo de experientes. Para verificar o efeito do exercício na ocorrência de microlesões ele mediu a quantidade de CK (creatina kinase) encontrada no sangue semanalmente. Ele verificou que a concentração de CK no sangue dos novatos durante o perído de treinos era muito alta, suficiente para indicar altas taxas de lesões muculares. Nos indivíduos treinados, baixíssimas, como se não houvesse microlesões em quantidades significativas. Além disso a sensação de dor, principalmente no início do treinamento, foi significativamente maior no grupo de novatos. Bom, se é aquele cara lá da academia, o diagnóstico é que só o grupo que ficou dolorido treinou “DIREITO”. No pain, no gain, lembram?

O problema é que quando foram realizadas as avaliações de força e hipertrofia os resultados foram os seguintes: novatos, +25,8% de força. Experientes, +24,8%. Na hipertrofia: novatos, +7,5% de massa muscular do quadríceps. Experientes, +6,5%. Noooooossaaaaaa, que enorme diferença! É, eu sei, fui cínico.

Ta aí, gostaria dos argumentos de quem defende a ideia de que treino BOM é o que arrebenta o sujeito!? Pra mim, treino bom é o que resolve.
Abraço a todos.


FLANN, K. L.; LASTAYO, P. C.; MCCLAIN, D. A.; HAZEL, M.; LINDSTEDT, S. Muscle damage and muscle remodeling: no pain, no gain? The Journal of Experimental Biology n. 214, p. 674-679, 2012.